Comédias da vida gelada
25 Abril, 2008
22 Setembro, 2006
Latas de conserva

Latas de conserva. Queria falar de latas de conserva. Do metal vestido de papel. Dos machucados eternos (latas de conserva não sabem curar cicatrizes). Da enorme multidão de exércitos iguais, vizinhos a outros exércitos iguais vestindo roupas de papel diferentes.
Latas de conserva tem uma vocação para a eternidade. Ainda que a eternidade dure apenas o que dure, como no poema de Vinícius. Que me importa se o infinito tem prazo de validade ? Latas de conserva são eternas enquanto conservam.
Latas de conserva são misteriosas... Sempre quis comprar dezenas e desnudá-las todas. E cada dia, na hora da refeição, escolheria uma ao acaso. E assim comeria feijões no desjejum e almoçaria leite moça. E a surpresa só findaria no momento que o abridor desvirginasse a lata de conserva.
Por vezes queria pôr pedaços de mim, em uma lata de conserva. Pedaços do que fui. Pedaços do que serei. Guardar um pouco desta mágoa que levo hoje, pra poder comer um prato agri-doce em um momento de felicidade! Abrir agora uma lata de entusiasmo, pra dar ao menos um tom de sobremesa a uma refeição indesejada.
Mas enfim... queria apenas falar de latas de conserva.
08 Setembro, 2006
Minha primeira vez...

Depois de muitos (muitos) anos do lado de lá da sala de aula, hoje tive minha primeira experiência de professor. Eu, o quadro e várias equações contra sessenta alunos de gestão que não gostam nem um pouco de matemática. Entre uma derivada e outra, a coisa até que foi bem.
É curiosa a transição entre um lado e outro. Em um dado momento, pedi pra um aluno ler o enunciado de uma questão e ele, caindo nas brincadeiras dos colegas, não conseguia parar de rir. Ri também, embora meu francês não tenha me permitido fazer as brincadeiras que gostaria. De um lado, a responsabilidade de ter que passar a matéria e ajudar os alunos a entenderem. De outro, o sentimento de que ainda não sei como lidar com o fato que meu lugar não é mais ali, com eles. De um lado, ser chamado de "Monsieur", com toda carga de respeito que isso carrega. De outro, a vontade de sentar ao lado de cada um e dizer, "escuta, isso aqui é assim!! Entende ? Então vamos tomar uma cerveja!".
Enfim, para uma primeira vez, até que não posso reclamar. Não creio que ganharia nenhum prêmio de didática pela aula de hoje, mas também sei que tenho uma vida inteira pela frente para me tornar o professor que eu quero ser. Desejo apenas que essa sensação gostosa, essa que a gente sente quando gosta do que faz, possa continuar para sempre!
27 Agosto, 2006
Amália

Nunca me senti satisfeito depois de escrever um conto e até hoje, não sabia bem por que. Agora, lendo um livro do Tonino Benacquista, um francês de origem italiana, acho que começo a descobrir porque sempre me senti tão frustrado com minhas historietas. Não é difícil explicar, mas antes preciso falar do livro...
Saga, se chama... a história de quatro cenaristas, em fim patético ou início tardio de carreira, que são convocados para escrever uma novela, Saga, que será transmitida às quatro da manhã. Saga tem um único objetivo: obedecer às leis francesas que impõem um mínimo de produção local a uma grade cheia de seriados americanos. Custo, ou melhor, baixíssimo custo, é o único limite imposto pelo produtor.
No livro se misturam as sagas dos quatro cenaristas e da dezena de personagens criados com total liberdade, sem os menores pudores de coerência. Logo, os quatro se dão conta do poder que têm, mexendo com a vida de cada criatura, mais a torto que a direito. Nesse momento, me caiu a ficha.
Conscientemente, nunca me senti capaz de jogar com a vida de alguém, ainda que esse alguém não exista que numa folha de rascunho ou no disco duro de um computador. Poder criar, digamos, uma Amália. Preciosa. Cabelos escuros que absorvem toda a luz que há em volta, apenas para fazer contraste com uns olhos-pequenas-estrelas-fugazes que gelam a alma. Posso jogar com Amália, posso fazê-la sofrer ou ser feliz. Posso por em sua boca a mais pura filosofia extraída de umas duas ou três consultas ao google. E as frases podem sair na língua que quiser, em alemão, em francês, em russo... e sua voz pode carregar um leve sotaque italiano, brasileiro, espanhol, digamos espanhol. Posso matá-la e, por que não ressucitá-la ? Com alguma desculpa esfarrapada, justificada apenas na minha total liberdade de autor, ou melhor, sem desculpa alguma, apenas porque a queria ainda aí.
Crio, claro, um outro qualquer, por quem Amália se sentirá perdidamente atraída. O chamarei de Alys, que não tenho mais idade de estar aí, publicando bobagens na Internet e ainda por cima ter a pouca vergonha de tentar esconder minhas intromissões auto-biográficas. Alys, pode nem conhecer Amália. Ou pode desprezá-la. Ou pode entrar em uma paixão insana, incondicionalmente correspondida. Mais que isso, os dois podem ir onde quiserem, ou melhor, onde eu quiser. Entrar em um metrô em Montreal e desembarcar em Sidney, trocando carinhos em cada parada, enquanto não observam irem desfilando pelas portas norte-americanos, europeus, africanos e finalmente dois ou três casais de australianos que indicam que o trem chegou ao destino. E ainda aí, posso decidir seguir viagem até Tóquio, ou simplesmente, sem a menor explicação, colocá-los em uma cama flutuante de uma estação espacial qualquer. Ou abduzidos por seres amarelos ou vermelhos que tomam notas enquanto eles fazem amor. Tudo pode durar dois minutos ou dois séculos, segundo e unicamente segundo a minha vontade.
Mas tudo acaba um momento após eu acabar de escrever... E vejo Amália aí, estatuada em algum canto do papel, sem sentimentos porque, ao contrário da canção, Amália não era mulher de verdade. E o Alys daqui, sem coragem de abandonar a Amália de lá (quem sabe por sofrer pela Amália daqui, que ainda não tinha entrado na narração), decide apenas deixar essa história boba de lado.
10 Julho, 2006
Cabeçadas, Zizou e Camus

Eu não sabia, mas parece que Camus, franco-argelino como Zidane, escreveu no seu ensaio sobre o suicídido que, ao contrário do que pensa a maioria, o suicídio é um ato de coragem.
Em um outro livro ele escreveu: "É o condenado à morte que rejeita o suicídio". Zizou não estava condenado. Ao contrário. Poucos minutos antes da cabeçada fatídica, ele quase marcou (ironicamente, com a cabeça) um gol que le teria consagrado.
Mas, Zidane não é um homem para acabar na galeria dos heróis intocáveis. É um gênio, e isso é tudo: gênio que se irrita. Gênio que, sem trocadilhos, pode perder a cabeça. Gênio que se suicida a dez minutos da glória.
Mais que um gênio, ele faz parte desta categoria rara de pessoas extraordinárias que, paradoxalmente, nos lembra que somos humanos: limitados e imperfeitos. E isso, meus amigos, não é pouca coisa.
(ps.: a referência do Camus com o suicídio e a associação com o Zizou eu peguei do blogue do Juca Kfouri, que de vez em quando dá uma dentro)
30 Maio, 2006
18 Maio, 2006
Tudo ao mesmo tempo agora...

Lembro de uma (nem tão) velha canção doTitãs com versos aparentemente paradoxais: "uma coisa de cada vez", "tudo ao mesmo tempo agora". Não me recordo do resto da letra, e isso não importa muito, já que provavelmente esses dois versos são suficientes para expressar aqueles momentos das nossas vidas em que as coisas parecem acontecer ao mesmo tempo enquanto, sem saber ao certo como, aproveitamos (ou queremos aproveitar) uma coisa de cada vez.
Em menos de um mês, parto pra Alemanha. Um sonho de criança que se realiza: ver uma copa do mundo de perto. Será através de um telão, eu sei, mas estarei a poucos metros de onde Ronaldinho e cia. estarão batalhando por uma estrela. Entrementes, uma tese de doutorado por terminar... outro sonho, que por meses (anos ?) pareceu impossível. Que por anos (meses ?) quis me empurrar (e empurrou) em depressões tão comuns nesse nosso meio acadêmico-individualista-pseudo-científico.
Mais que isso, em alguns meses, acaba-se minha estada em Montreal. Acaba justo quando eu mais queria que ela estivesse começando. Justo quando eu cheguei naquele ponto em que posso abrir meu caderninho de telefones e fazer ligações locais para amigos queridos, apenas para dizer que estou com saudades, para conversar, para me sentir um ser humano, pertencente a uma raça que se comunica e se ama. A estada chega ao fim, sobretudo, no momento em que uma possibilidade de amor, como diria um texto que a Gisela me mandou (e a Lili remandou), bate em minha porta. Uma possibilidade real, linda, simpática e carinhosa. Uma possibilidade doce, inteligente e divertida.
Vida conturbada, oh minha vida. Quantos dias faltam até que o furacão vire brisa novamente ? Três semanas até a copa, umas duas semanas até que entregue a tese, uns dez dias até que a minha possibilidade (aquela doce, linda e simpática) 'se va de vacaciones por todo el verano'. E eu aqui, com tudo ao mesmo tempo agora, curtindo uma coisa de cada vez.



